segunda-feira, 4 de março de 2013
A mineração em terras indígenas vai acontecer com ou sem consentimento, então, é melhor que eles negociem
Danielle Nogueira # O Globo
Enquanto o governo corre contra o tempo para tirar do papel o polêmico
substitutivo ao projeto de lei 1610/96, que regulamenta a mineração em
terras indígenas, solicitações para pesquisa mineral nessas áreas não
param de chegar ao Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM).
Levantamento feito a pedido do GLOBO revela que existem 4.519
requerimentos de pesquisa em terras indígenas aguardando o aval do
Congresso. Eles estão concentrados em 17 reservas na Amazônia Legal,
como as dos ianomamis (RR) e dos caiapós, e têm como alvo desde ouro e
cobre até níquel e estanho. Entre as empresas interessadas estão
gigantes, como a Vale, e até multinacionais, como a anglo-sul-africana
Anglo American.
Organizações defensoras dos direitos indígenas temem que a atividade
provoque danos ambientais e comprometa os costumes de povos
tradicionais, tornando-os dependentes de recursos financeiros externos.
Também criticam o substitutivo por não dar poder de veto às comunidades
e não resguardar áreas dentro das reservas para cultos, cultivo de grãos
e moradia. Após grita do movimento indígena, a Funai fixou um calendário
de audiências públicas, de forma que os grupos étnicos afetados pudessem
ser ouvidos. A primeira está prevista para a próxima quinta-feira, em
Rio Branco (AC).
Embora a maioria dos 4.519 pedidos seja da década de 90, nos últimos
dois anos o número de solicitações voltou a subir: 102 em 2011 e 127 em
2012. Este ano, já há 12. Quem lidera a lista é a Mineração Silvana, do
grupo Santa Elina (738). Em seguida vêm Vale (211, dos quais três
protocolados em 2011), Mineração Tanagra (176); Mineração Serra Morena
(166) e Mineração Itamaracá (125), controlada pela Anglo.
A Anglo disse que “desde 1996 mantém diversos pedidos de pesquisa
mineral junto ao DNPM, a fim de identificar e mapear recursos minerais
que possam abrigar operações no futuroâ€�. Representantes da Serra
Morena não foram encontrados. As demais companhias não se manifestaram.
O substitutivo prevê que as solicitações sejam anuladas e que sejam
feitas licitações para a pesquisa nas reservas. Mas as mineradoras as
mantêm ativas, na expectativa que as regras atuais sejam mantidas. Hoje,
os pedidos são analisados por ordem de chegada no DNPM.
O que está por trás desse movimento é a recente alta dos preços das
commodities e a proximidade do esgotamento das reservas minerais de
qualidade no mundo, o que tem levado empresas a pressionar o governo a
liberar a mineração em terras intocadas. Desde 2008, o preço do ouro
dobrou. Não por acaso, é ele o alvo de metade (2.263) dos pedidos.
A liberação de novas fronteiras exploratórias deve ser entendida ainda
no bojo das mudanças do Código Mineral no país:
— Há uma tendência na América do Sul de os governos mudarem as regras
da mineração, com o objetivo de fomentar o desenvolvimento econômico e,
ao mesmo tempo, ampliar a participação do Estado nessas riquezas,
visando à obtenção de recursos para programas sociais. É o chamado
neoextrativismo — diz Bruno Milanez, da Universidade Federal de Juiz
de Fora, que estuda mineração e conflitos ambientais.
O maior número de solicitações (664) incide sobre as terras dos
ianomamis. Segundo cálculos do Instituto Socioambiental (ISA), esses
requerimentos cobrem 55% de seu território. Casos ainda mais alarmantes
são os das reservas de Xikrin do Cateté e Baú, ambas no Pará, onde os
pedidos cobrem 100% e 93% do território.
Além do risco de degradação ambiental, representantes do movimento
indígena temem que a mineração crie uma dependência dos índios em
relação a recursos externos, uma vez que estão previstos no substitutivo
repasses de no mínimo 5% do faturamento bruto das mineradoras para as
comunidades afetadas. Receiam ainda que haja uma substituição das
obrigações do Estado, como o provimento de saúde, por contrapartidas
oferecidas pelas empresas.
— Os povos indígenas que estão nas áreas de influência de grandes
empreendimentos recebem cesta básica e dinheiro, o que inibe os mais
velhos a passarem adiante conhecimentos tradicionais sobre lavoura e
caça. O mesmo vai acontecer com a mineração. Quando a atividade acabar e
a fonte de recursos cessar, as novas gerações não saberão tirar da terra
sua subsistência — diz Cleber Buzatto, secretário-executivo do
Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
Constituição prevê consulta a índios
Os críticos também se opõem ao substitutivo porque este não prevê poder
de veto aos índios. Se eles não aceitarem a mineração em suas terras,
uma comissão da qual não participam, decidirá por eles. Outro ponto
polêmico é que não há salvaguardas para as reservas. Em tese 100% das
terras podem ser alvo de mineração.
A Constituição não prevê que os índios deem a palavra final sobre a
lavra em suas reservas. No parágrafo terceiro do artigo 231, é dito que
essa decisão cabe ao Congresso, mas os indígenas devem ser consultados,
“ficando-lhes assegurada participação nos resultados da lavra, na
forma da leiâ€�. Na ausência desta, vale a Convenção 169 da Organização
Internacional do Trabalho sobre Povos Indígenas e Tribais, ratificada
pelo Brasil em 2002, que insiste na consulta aos índios “por meio de
procedimentos adequados�.
O problema é que ainda não há parâmetros para esses procedimentos — se
a audiência deve ser em língua nativa, por exemplo. Um grupo
interministerial foi formado com esse intuito em 2012, mas não chegou a
conclusão alguma. A Funai, então, decidiu organizar as audiências, que
serão realizadas até junho. Sobre a mineração em terras indígenas, a
Fundação afirma que as discussões devem ser feitas “em conjunto com o
Estatuto dos Povos Indígenasâ€�, sob revisão. Para os críticos, o tema é
tratado em projeto de lei para dar celeridade à sua aprovação. O
Ministério de Minas e Energia, por sua vez, diz que “a regulamentação
das atividades em terras indígenas é essencial para formalização das
lavras ilegais�.
— O texto da Constituição foi o possível em 1988, tamanha a pressão
das mineradoras. Não podemos deixar os índios de fora da discussão —
afirma o antropólogo Ricardo Verdum, da Universidade de Brasília.
O autor do substitutivo, o deputado federal Édio Lopes (PMDB/RR), frisa
que seu projeto cria fundos a longo prazo para que os índios não fiquem
desprotegidos e que as reservas de povos cujo “estágio culturalâ€� não
lhes permita entender o debate serão preservadas. Ele descarta o poder
de veto aos índios e espera votar o projeto ainda este ano.
— A mineração em terras indígenas vai acontecer com ou sem
consentimento, então, é melhor que eles negociem.
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